Talvez você já tenha visto alguma daquelas fotos antigas de um bispo diante de uma câmera de televisão, usando batina, cruz peitoral e falando com uma naturalidade impressionante para milhões de pessoas. Aquele bispo era Fulton Sheen. E agora ele é oficialmente Beato da Igreja Católica.
No dia 24 de setembro de 2026, o arcebispo norte-americano Fulton John Sheen foi beatificado em Saint Louis, nos Estados Unidos, durante uma celebração presidida pelo cardeal Luis Antonio Tagle, representante do Papa Leão XIV.
Para quem trabalha com comunicação ou evangelização, é difícil conhecer sua história sem pensar que esse homem estava muito à frente do seu tempo. Décadas antes de Instagram, YouTube, podcast, TikTok ou qualquer outra plataforma digital, Sheen já havia compreendido que os novos meios de comunicação também poderiam se tornar lugares de anúncio do Evangelho.
E foi exatamente isso que ele fez.
Um Beato que evangelizava pela televisão
Fulton Sheen nasceu em 8 de maio de 1895, em El Paso, no estado de Illinois, nos Estados Unidos, e foi ordenado sacerdote em 1919. Teve uma sólida formação académica, estudou nos Estados Unidos, na Bélgica e em Roma e, durante anos, também foi professor na Universidade Católica da América.

Sua fama, porém, cresceu principalmente por causa do rádio e da televisão.
A partir de 1930, começou a participar do programa de rádio The Catholic Hour, que chegou a alcançar milhões de ouvintes. Mais tarde, entrou para a televisão com o programa Life Is Worth Living, algo como “Vale a pena viver”, que se tornou um enorme sucesso nos Estados Unidos e chegou a reunir cerca de 30 milhões de espectadores.
É um número difícil até de imaginar hoje.
Um bispo católico aparecia diante das câmeras para falar sobre Deus, família, sofrimento, pecado, felicidade, sociedade e tantas outras questões humanas. E fazia isso com pouquíssimos recursos: normalmente um quadro-negro, uma câmera, boa preparação e uma capacidade extraordinária de explicar temas profundos de maneira simples.
Em 1953, seu trabalho chegou a ser reconhecido com um Emmy, um dos principais prémios da televisão norte-americana.
Mas existe algo importante na história de Fulton Sheen: ele nunca pareceu confundir alcance com missão. A televisão era apenas o meio. O objetivo continuava sendo levar as pessoas até Cristo.
“Nunca me canso de contar essa história”
Durante a homilia da beatificação, o cardeal Luis Antonio Tagle recordou uma frase muito bonita de Fulton Sheen. Certa vez, perguntaram por que ele havia se tornado sacerdote, e sua resposta foi simples: “Fui chamado para contar esta história. Nunca me canso de contá-la.”
A história, claro, era o Evangelho.
Essa frase diz muito sobre sua forma de evangelizar. Fulton Sheen não parecia comunicar apenas porque dominava uma técnica ou porque tinha talento para falar em público. Ele comunicava porque estava convencido daquilo que anunciava.
E talvez aí esteja um dos grandes ensinamentos para quem evangeliza hoje.
Podemos estudar algoritmo, aprender edição, melhorar iluminação, investir em câmera, pensar em roteiro e entender melhor como as redes sociais funcionam. Tudo isso ajuda e, muitas vezes, é necessário. Mas nenhuma técnica substitui o essencial: estar verdadeiramente apaixonado por Jesus e pelo Evangelho que estamos anunciando.

Na própria beatificação, o cardeal Tagle chamou a atenção para isso. A grandeza de Fulton Sheen não estava simplesmente no tamanho de sua audiência ou na fama que conquistou, mas na sua união com Cristo e na forma como sua missão nascia dessa relação.
Ou seja, a Igreja não está beatificando apenas “o bispo da televisão”. Está reconhecendo a santidade do homem que existia antes da câmera ser ligada.
Antes da câmera, havia o Sacrário
Uma das marcas mais conhecidas da espiritualidade de Fulton Sheen era sua fidelidade à Hora Santa diária. Durante décadas, ele procurou reservar todos os dias um período de oração diante do Santíssimo Sacramento.
Isso ajuda muito a compreender sua vida.
O homem que falava para milhões de pessoas também sabia permanecer em silêncio diante de Jesus. Aquele que ocupava espaço na televisão reservava, diariamente, um espaço para Deus.
Para quem evangeliza hoje, isso é quase um exame de consciência.
É perfeitamente possível falar muito sobre Jesus e passar pouco tempo com Ele. Podemos preparar conteúdos sobre oração, Eucaristia e vida espiritual e, sem perceber, deixar nossa própria oração enfraquecer.
Fulton Sheen nos lembra que a evangelização precisa nascer de algum lugar, e esse lugar é a intimidade com Cristo.
O bispo que queria ser apenas o porteiro
Outro episódio recordado durante a beatificação ajuda a perceber a humildade com que Sheen via sua própria missão.
Certa vez, perguntaram a ele quantas conversões poderiam ser atribuídas ao seu apostolado. Fulton Sheen respondeu que nunca havia contado, porque tinha receio de começar a considerar aquelas conversões como obra sua.
Por isso, gostava de se definir como uma espécie de “porteiro”, alguém que conduzia as pessoas até a porta aberta da casa de Deus.
Essa imagem é muito bonita porque resume bem o papel de quem evangeliza.
Nossa tarefa é apontar o caminho, apresentar Cristo e ajudar as pessoas a se aproximarem. A transformação, porém, pertence a Deus.
Isso também protege o coração de uma tentação muito atual: começar anunciando Jesus e, aos poucos, transformar a evangelização numa busca por reconhecimento, números, seguidores ou aprovação.
Fulton Sheen conheceu a fama e alcançou audiências enormes, mas procurava manter claro que o centro não era ele.
O milagre que levou Fulton Sheen à beatificação
A causa de beatificação de Fulton Sheen começou oficialmente em 2002. Em 2012, o Papa Bento XVI reconheceu suas virtudes heroicas, e ele passou a ser chamado de Venerável.
Anos depois, a Igreja reconheceu o milagre necessário para sua beatificação.
Em setembro de 2010, um menino nasceu sem batimentos cardíacos e sem respirar. Durante 61 minutos, não apresentou sinais de vida. Seus pais começaram a pedir a intercessão de Fulton Sheen e, depois de mais de uma hora, o coração da criança voltou a bater.
O menino se recuperou e, apesar do longo período sem sinais vitais, não apresentou as graves sequelas que seriam esperadas numa situação semelhante. O caso passou por investigação médica e teológica e foi posteriormente reconhecido pela Igreja como um milagre atribuído à intercessão de Sheen.
Em 2019, o Papa Francisco aprovou oficialmente o milagre.
A beatificação chegou a ser marcada para aquele mesmo ano, mas acabou adiada. Depois de alguns anos de espera, o processo avançou novamente e culminou na celebração de 24 de setembro de 2026.
Agora, a Igreja pode chamá-lo oficialmente de Beato Fulton John Sheen.
Um Beato muito atual para quem evangeliza
Talvez Fulton Sheen seja tão atual porque vivemos numa época em que praticamente qualquer pessoa carrega um pequeno estúdio de comunicação no bolso.
Um celular permite gravar vídeos, fazer transmissões ao vivo, publicar reflexões, responder dúvidas, contar a história de um santo ou simplesmente lembrar alguém de que Deus continua próximo.
Temos recursos que Fulton Sheen jamais poderia imaginar. A missão, porém, continua sendo essencialmente a mesma.

Pouco antes da beatificação, o Papa Leão XIV recordou que havia assistido Fulton Sheen na televisão quando era jovem e desejou que o exemplo do novo Beato inspirasse outros cristãos a encontrar novas formas de anunciar o Evangelho com entusiasmo e alegria.
Essa mensagem vale para quem tem milhões de seguidores e para quem tem poucos. Vale para quem trabalha em uma grande emissora, para quem cuida das redes sociais de uma paróquia, para quem dá catequese ou para quem grava um vídeo simples no próprio quarto.
O alcance muda. A missão continua.
O que Fulton Sheen ainda pode nos ensinar?
A beatificação de Fulton Sheen nos apresenta um modelo muito concreto de evangelização para o nosso tempo.
Ele ensina que devemos conhecer profundamente aquilo que anunciamos, usar com inteligência os meios que temos à disposição, preparar bem nossa comunicação e aprender a falar de maneira que as pessoas realmente consigam compreender.
Mas ensina também algo ainda mais importante: nenhum meio de comunicação substitui uma vida de oração.
Fulton Sheen falava para multidões porque, antes de tudo, procurava escutar Deus no silêncio. Usava a televisão, mas não dependia dela para saber quem era. Tinha audiência, fama e reconhecimento, mas entendia que seu papel era conduzir as pessoas até Cristo.
Talvez seja exatamente por isso que, tantas décadas depois, continuamos falando sobre ele.
As plataformas mudam, os formatos envelhecem, os algoritmos passam e novas tecnologias aparecem. O Evangelho, porém, continua precisando de pessoas dispostas a anunciá-lo com inteligência, criatividade e santidade.
Fulton Sheen dedicou a vida a contar essa história.
E, pelo jeito, ainda tem muita coisa para ensinar a quem deseja continuar contando-a hoje.
Beato Fulton Sheen, rogai por nós!

Deixe um comentário