Quem são os beatos do Brasil Conheça 15 histórias de santidade ligadas à nossa terra

Ao longo de nossa história, homens e mulheres de diferentes idades, origens e vocações fizeram destas terras lugar de missão, caridade, evangelização e, em alguns casos, martírio. Alguns nasceram aqui. Outros atravessaram o oceano e fizeram do Brasil sua segunda pátria. Há ainda aqueles que entregaram a vida quando estavam justamente a caminho de nosso país para evangelizar.

No Geração Eleita, já contamos quem são os santos brasileiros e os santos cuja história está profundamente ligada ao Brasil. Agora, vale conhecer também aqueles que a Igreja já proclamou Bem-aventurados.

Neste guia, reunimos 15 histórias ou grupos de beatos ligados à nossa terra. Isso significa que, em alguns casos, vários mártires aparecem juntos, como Inácio de Azevedo e seus companheiros. São sacerdotes, religiosas, leigos, missionários, jovens e crianças que mostram como a santidade assumiu muitos rostos em nossa história.

Beato Inácio de Azevedo e companheiros mártires

O português Inácio de Azevedo era sacerdote jesuíta e chegou a conhecer pessoalmente as missões da Companhia de Jesus no Brasil. Quando retornou à Europa, recebeu a tarefa de organizar uma grande expedição de missionários para reforçar a evangelização nestas terras.

Em 1570, partiu novamente rumo ao Brasil acompanhado por dezenas de jesuítas. A missão, porém, nunca chegou ao destino. Próximo às Ilhas Canárias, os religiosos foram atacados por corsários calvinistas franceses e mortos por causa da fé católica.

O grupo ficou conhecido como os 40 Mártires do Brasil, justamente porque aqueles homens tinham nosso país como destino missionário. Inácio de Azevedo e seus companheiros foram beatificados pelo Papa Pio IX em 11 de maio de 1854.

A história deles lembra que a ligação com o Brasil também pode nascer de uma missão desejada e oferecida, ainda que nunca tenha sido concluída.

Beata Bárbara Maix

Bárbara Maix nasceu em Viena, na Áustria, em 1818. Em meio às turbulências políticas que atingiam a Europa, deixou sua terra natal e chegou ao Brasil em 1849.

Aqui fundou a Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria, dedicando especial atenção à educação, aos órfãos, às crianças, às mulheres pobres e às pessoas em situação de vulnerabilidade.

Bárbara fez do Brasil sua segunda pátria e desenvolveu uma espiritualidade profundamente marcada pela confiança em Deus e pelo serviço aos necessitados.

Morreu no Rio de Janeiro, em 17 de março de 1873. Sua beatificação aconteceu em 6 de novembro de 2010, no Ginásio Gigantinho, em Porto Alegre. A Carta Apostólica foi proclamada pelo então núncio apostólico Dom Lorenzo Baldisseri, durante a celebração presidida pelo arcebispo Dom Dadeus Grings.

Beata Francisca de Paula de Jesus, a Nhá Chica

Uma mulher negra, pobre, leiga e sem formação escolar tornou-se uma das figuras mais queridas da religiosidade brasileira.

Francisca de Paula de Jesus, conhecida como Nhá Chica, viveu grande parte de sua vida em Baependi, Minas Gerais. Órfã ainda jovem, escolheu permanecer solteira e dedicar sua existência à oração e à caridade.

Sua devoção a Nossa Senhora da Conceição era tão profunda que chamava a Virgem carinhosamente de “Minha Sinhá”. Pessoas de diferentes condições sociais começaram a procurar Nhá Chica para pedir conselhos, orações e ajuda.

Sua casa simples tornou-se lugar de acolhimento e fé.

Nhá Chica foi beatificada em 4 de maio de 2013, em Baependi. O milagre reconhecido para sua beatificação foi a cura inexplicável de um grave problema cardíaco congênito de Ana Lúcia Meirelles Leite.

Beato Francisco de Paula Victor

Francisco de Paula Victor nasceu em Campanha, Minas Gerais, em 1827. Homem negro numa sociedade ainda escravista e profundamente marcada pelo preconceito racial, enfrentou grandes dificuldades até conseguir seguir sua vocação sacerdotal.

Depois de ordenado, foi enviado para Três Pontas, onde permaneceu por mais de cinco décadas.

Padre Victor destacou-se pela catequese, pela administração dos sacramentos, pela educação e pelo cuidado com os pobres. Sua humildade e proximidade com o povo fizeram crescer ainda em vida sua fama de santidade.

Morreu em 23 de setembro de 1905. Foi beatificado em 14 de novembro de 2015, em Três Pontas, com a proclamação realizada pelo cardeal Angelo Amato como legado pontifício do Papa Francisco.

Beatos Manuel Gómez González e Adílio Daronch

Um sacerdote e um adolescente ficaram unidos para sempre pela missão e pelo martírio.

O espanhol Padre Manuel Gómez González veio para o Brasil e desenvolveu seu ministério no interior do Rio Grande do Sul, atendendo comunidades espalhadas por uma região extensa e de difícil acesso.

Adílio Daronch, brasileiro, era seu jovem coroinha e costumava acompanhá-lo nas viagens pastorais.

Em maio de 1924, os dois partiram para visitar comunidades e acabaram capturados. Foram conduzidos para uma região de mata e assassinados em 21 de maio de 1924. Adílio tinha somente 15 anos.

A Igreja reconheceu que os dois morreram como mártires. Foram beatificados juntos em 21 de outubro de 2007, em Frederico Westphalen, no Rio Grande do Sul.

Beata Albertina Berkenbrock

Albertina Berkenbrock nasceu em 1919, em São Luís, no município catarinense de Imaruí. Cresceu numa família católica e, segundo os testemunhos recolhidos em sua causa, demonstrava desde pequena amor à oração e à vida sacramental.

Em 15 de junho de 1931, aos 12 anos, sofreu uma tentativa de violência sexual. Albertina resistiu ao agressor e foi assassinada.

A Igreja reconheceu seu martírio e passou a apresentá-la especialmente às novas gerações como exemplo de fidelidade cristã e coragem.

Sua beatificação aconteceu em 20 de outubro de 2007, na Praça da Catedral de Tubarão, em Santa Catarina, numa celebração presidida pelo cardeal José Saraiva Martins.

Beata Benigna Cardoso da Silva

Outra jovem brasileira reconhecida como mártir é Benigna Cardoso da Silva.

Nascida em 1928, em Santana do Cariri, no Ceará, ficou órfã ainda pequena e foi acolhida por outra família. Cresceu participando da vida de sua comunidade cristã.

Aos 13 anos, começou a sofrer o assédio de um rapaz. No dia 24 de outubro de 1941, ao resistir a uma tentativa de violência sexual, foi assassinada.

Sua história permaneceu viva durante décadas na memória e na devoção do povo do Cariri.

Benigna foi beatificada exatamente no aniversário de seu martírio, em 24 de outubro de 2022, no Parque de Exposições Pedro Felício Cavalcante, no Crato. A celebração foi presidida pelo cardeal Leonardo Steiner, enviado do Papa Francisco.

Beato Eustáquio van Lieshout

Nascido na Holanda em 1890, Humberto van Lieshout, que ficaria conhecido no Brasil como Padre Eustáquio, pertencia à Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e Maria.

Chegou ao Brasil como missionário em 1925 e desenvolveu seu ministério em diferentes regiões, principalmente em Minas Gerais.

Padre Eustáquio ficou particularmente conhecido pela proximidade com os doentes e pelas multidões que procuravam suas bênçãos. A expressão “Saúde e paz” tornou-se inseparável de sua memória.

Seus últimos anos foram vividos em Belo Horizonte, onde morreu em 30 de agosto de 1943.

Foi beatificado em 15 de junho de 2006, em Belo Horizonte, pelo cardeal José Saraiva Martins.

Beata Assunta Marchetti

Assunta Marchetti nasceu na Itália, em 1871. Inicialmente, desejava uma vida contemplativa, mas sua vocação acabaria conduzindo-a para muito longe de sua terra natal.

Em 1895, veio ao Brasil para colaborar com o irmão, o missionário Padre José Marchetti, no atendimento aos imigrantes italianos.

Em São Paulo, dedicou-se especialmente às crianças órfãs, aos migrantes, enfermos e necessitados. Tornou-se cofundadora das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo, as Scalabrinianas.

Assunta passou mais de meio século servindo no Brasil. Morreu em São Paulo, em 1º de julho de 1948.

Sua beatificação aconteceu em 25 de outubro de 2014, na Catedral da Sé, em São Paulo, em celebração presidida pelo cardeal Angelo Amato.

Beato Donizetti Tavares de Lima

Donizetti Tavares de Lima nasceu em Cássia, Minas Gerais, em 1882, mas sua história ficou especialmente ligada a Tambaú, no interior de São Paulo.

Sacerdote diocesano, viveu de maneira simples e dedicou grande parte de seu ministério aos pobres, doentes e pessoas que procuravam auxílio espiritual.

Outro traço marcante de sua vida era a profunda devoção a Nossa Senhora Aparecida.

Sua fama se espalhou pelo país e grandes multidões passaram a procurar Tambaú em busca de suas bênçãos. Apesar disso, Padre Donizetti constantemente direcionava a fé do povo para Deus e para a intercessão da Virgem Maria.

Morreu em 1961 e foi beatificado em 23 de novembro de 2019, em Tambaú.

Beato João Schiavo

O italiano João Schiavo nasceu em 1903 e ingressou na Congregação de São José, fundada por São Leonardo Murialdo.

Ordenado sacerdote em 1927, chegou ao Brasil em 1931 e desenvolveu grande parte de sua missão no Rio Grande do Sul.

Trabalhou intensamente na formação dos religiosos, na animação vocacional, na educação e no desenvolvimento das obras josefinas. Também teve papel importante na presença das Irmãs Murialdinas no Brasil.

Padre João morreu em 1967 com grande fama de santidade.

Foi beatificado em 28 de outubro de 2017, nos Pavilhões da Festa da Uva, em Caxias do Sul, numa celebração presidida pelo cardeal Angelo Amato, representante do Papa Francisco.

Beata Isabel Cristina Mrad Campos

Isabel Cristina Mrad Campos nasceu em Barbacena, Minas Gerais, em 1962. Cresceu numa família ligada à espiritualidade vicentina, aprendendo desde cedo a olhar com atenção para os pobres, idosos e crianças.

Em 1982, aos 20 anos, mudou-se para Juiz de Fora para se preparar para o vestibular. Sonhava cursar Medicina e tornar-se pediatra.

No dia 1º de setembro daquele ano, sofreu uma tentativa de violência sexual dentro do apartamento onde morava. Isabel resistiu ao agressor e foi assassinada.

Em 2020, o Papa Francisco reconheceu oficialmente seu martírio, dispensando a apresentação de um milagre para sua beatificação.

Isabel Cristina foi proclamada beata em 10 de dezembro de 2022, em Barbacena, numa celebração presidida pelo cardeal Raymundo Damasceno Assis.

Beato Mariano de la Mata Aparício

Mariano de la Mata Aparício nasceu na Espanha em 1905 e ingressou na Ordem de Santo Agostinho.

Foi ordenado sacerdote em 1930 e, já no ano seguinte, chegou ao Brasil, onde desenvolveria praticamente toda a sua vida missionária.

Atuou como educador, formador e superior religioso, mas tornou-se especialmente conhecido pelo cuidado com os pobres, enfermos e crianças.

Em São Paulo, acompanhou de perto as chamadas Oficinas da Caridade de Santa Rita, obra de assistência bastante conhecida na cidade.

Padre Mariano morreu em São Paulo em 1983. Foi beatificado na Catedral da Sé, em 5 de novembro de 2006, pelo cardeal José Saraiva Martins.

Beata Lindalva Justo de Oliveira

Lindalva Justo de Oliveira nasceu em 1953, no Rio Grande do Norte. Ao descobrir sua vocação à vida consagrada, ingressou na Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo.

Foi enviada para Salvador, onde passou a cuidar dos idosos no Abrigo Dom Pedro II. Seu serviço era marcado pela atenção aos mais frágeis e pela alegria com que exercia sua missão.

Durante esse período, Lindalva começou a sofrer assédio de um homem que frequentava o local. Recusou suas investidas e permaneceu firme em sua consagração.

Em 9 de abril de 1993, Sexta-feira Santa, foi assassinada.

A Igreja reconheceu sua morte como martírio. Lindalva foi beatificada em 2 de dezembro de 2007, em Salvador, numa celebração presidida pelo cardeal José Saraiva Martins em nome do Papa Bento XVI.

Beato Nazareno Lanciotti

O nome mais recente desta seleção é o missionário italiano Nazareno Lanciotti.

Nascido em Roma, em 1940, foi ordenado sacerdote em 1966 e chegou ao Brasil em 1971. Fez de Jauru, no Mato Grosso, o centro de aproximadamente três décadas de atividade missionária.

Seu apostolado unia evangelização, devoção eucarística e mariana e iniciativas concretas em favor dos mais vulneráveis.

Em 2001, Padre Nazareno foi vítima de um atentado e morreu posteriormente em consequência dos ferimentos. A Igreja reconheceu oficialmente seu martírio.

Sua beatificação aconteceu em 13 de junho de 2026, em Jauru, numa celebração presidida pelo cardeal João Braz de Aviz, delegado do Papa Leão XIV.

Do Brasil para o Céu

Colocadas lado a lado, essas histórias revelam como é impossível reduzir a santidade a um único perfil.

Há quem tenha vivido mais de oito décadas e quem tenha entregado a vida ainda na infância ou juventude. Há brasileiros, portugueses, espanhóis, italianos, austríacos e holandeses. Há sacerdotes, religiosas, leigos, missionários e mártires.

Alguns passaram décadas servindo silenciosamente aos pobres, enfermos, crianças e migrantes. Outros encontraram no martírio a forma definitiva de permanecer fiéis a Cristo.

Há também algo especialmente bonito nessa história: muitos deles não nasceram no Brasil, mas encontraram aqui a terra onde Deus lhes confiou uma missão.

É a mesma realidade que já encontramos ao conhecer os santos ligados à história do Brasil: nossa terra recebeu missionários de diferentes lugares, viu nascer grandes testemunhas do Evangelho e tornou-se cenário de histórias que hoje pertencem à Igreja inteira.

Dos santos canonizados aos bem-aventurados que ainda aguardam a canonização, existe uma verdadeira geografia da santidade espalhada pelo Brasil.

E a caminhada pelos altares ainda continua.

Depois dos santos e dos beatos, surge uma nova pergunta:

Quem são os Veneráveis do Brasil?

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