Mais 8 milagres no Brasil que ajudaram santos e beatos a chegar aos altares

Depois de Carlo Acutis, Madre Teresa, os pastorinhos de Fátima e outros grandes nomes, descobrimos mais oito histórias em que um milagre ocorrido no Brasil foi decisivo para uma beatificação ou canonização.

Mais 8 milagres no Brasil que ajudaram santos e beatos a chegar aos altares

O Brasil parece ter ocupado um lugar muito particular no mapa das causas dos santos.

Na primeira parte desta série, contamos histórias surpreendentes de milagres ocorridos em nosso país e reconhecidos oficialmente pela Igreja, como os atribuídos à intercessão de São Carlo Acutis, Santa Teresa de Calcutá, São José Allamano, Santa Elena Guerra, Santa Gianna Beretta Molla e dos pastorinhos São Francisco e Santa Jacinta Marto.

Leia a primeira parte: 8 milagres no Brasil que ajudaram grandes santos a chegar aos altares

Só que aquela lista estava longe de esgotar o assunto.

Continuando a pesquisa, encontramos outros santos e beatos estrangeiros que nunca viveram no Brasil, mas tiveram uma etapa decisiva de seu caminho até os altares ligada ao nosso país. Há um imperador austríaco, um intelectual francês, fundadores de congregações religiosas e missionários italianos e alemães.

As histórias também percorrem o mapa brasileiro: São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

Por isso, aqui estão mais oito milagres brasileiros que fizeram parte da história da santidade na Igreja.

Beato Francisco Maria da Cruz Jordan: uma menina que contrariou os diagnósticos em Jundiaí

O caso mais recente desta lista está ligado ao Beato Francisco Maria da Cruz Jordan, sacerdote alemão e fundador da Família Salvatoriana.

Em 2014, o casal Gisele e Fernando da Silva, de Jundiaí, no interior de São Paulo, esperava a filha Lívia Maria. Durante a gestação, exames indicaram sérios problemas no desenvolvimento da criança, incluindo um quadro compatível com displasia esquelética, uma doença que afetaria a formação dos ossos.

Diante do diagnóstico, os pais e outros membros da Família Salvatoriana começaram a pedir a intercessão do Padre Jordan.

Lívia Maria nasceu em 8 de setembro de 2014, justamente no aniversário da morte do fundador dos Salvatorianos e na festa da Natividade de Nossa Senhora. E nasceu saudável, contrariando os prognósticos apresentados durante a gravidez.

A Santa Sé reconheceu oficialmente a cura como milagre atribuído à intercessão de Francisco Jordan em 2020. No ano seguinte, em 15 de maio de 2021, ele foi beatificado na Basílica de São João de Latrão, em Roma. A própria Lívia participou da celebração levando uma relíquia do novo beato.

Um alemão que viveu entre os séculos XIX e XX encontrou, mais de cem anos depois, em uma família do interior paulista, o milagre que abriria definitivamente seu caminho para a beatificação.

Santa Josefina Vannini: uma queda de quase 11 metros em Sinop

Talvez este seja um dos casos mais impressionantes desta lista.

Josefina Vannini, italiana nascida em Roma e fundadora das Filhas de São Camilo, foi beatificada em 1994. Para que pudesse ser canonizada, porém, era necessário o reconhecimento de outro milagre.

E ele aconteceu em Sinop, Mato Grosso.

Em 19 de agosto de 2007, o trabalhador Arno Celson Klauck atuava na construção de uma casa de repouso para idosos dedicada à então Beata Josefina Vannini. Enquanto trabalhava no terceiro andar, perdeu o equilíbrio e caiu dentro do poço de um elevador.

Foram aproximadamente 10,8 metros de queda.

Dentro do poço havia pedaços de madeira, ferro e água acumulada pela chuva. Durante a queda, Arno invocou Madre Josefina pedindo ajuda. Quando foi retirado dali, apresentava apenas ferimentos leves. Os exames realizados no hospital também não encontraram as lesões graves que seriam esperadas numa queda daquela altura.

Depois de anos de investigação, a Igreja considerou cientificamente inexplicável a ausência dos danos normalmente esperados e reconheceu o acontecimento como milagre por intercessão de Vannini.

Santa Josefina Vannini foi canonizada pelo Papa Francisco em 13 de outubro de 2019, na mesma celebração em que o Brasil recebeu Santa Dulce dos Pobres.

Beata Clélia Merloni: a cura de um médico em Ribeirão Preto

Décadas antes, outra religiosa italiana já teria seu caminho aos altares ligado ao interior de São Paulo.

Clélia Merloni, fundadora das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, teve como milagre reconhecido para sua beatificação a cura do médico brasileiro Pedro Ângelo de Oliveira Filho, em Ribeirão Preto.

Em março de 1951, Pedro foi atingido por uma grave paralisia ascendente progressiva, identificada como síndrome de Landry, associada à síndrome de Guillain-Barré. A doença avançava rapidamente, comprometendo seus movimentos e chegando a ameaçar funções vitais.

Seu estado tornou-se extremamente grave. Diante da situação, religiosas e familiares começaram a recorrer à intercessão de Madre Clélia. Uma pequena relíquia da religiosa foi utilizada durante as orações.

A recuperação aconteceu de maneira rápida e inesperada. O caso passou posteriormente pelo rigoroso processo médico e teológico da Congregação para as Causas dos Santos e foi reconhecido oficialmente como milagre.

Clélia Merloni foi beatificada em 3 de novembro de 2018, na Basílica de São João de Latrão, em Roma.

Mais uma vez, um hospital brasileiro tornou-se parte de uma história que terminaria diante dos altares de Roma.

São Ludovico Pavoni: uma recuperação inexplicável em São Paulo

Em julho de 2009, Honório Lopes Martins, então com 68 anos, passou por uma cirurgia de próstata no Hospital Brigadeiro, em São Paulo.

Depois do procedimento, seu estado de saúde deteriorou-se drasticamente.

Segundo a documentação da causa, Honório sofreu acidente cerebrovascular, pneumonia bilateral, insuficiência respiratória aguda e insuficiência renal. Foi transferido para a UTI, e sua família foi alertada sobre o grave risco de morte e sobre possíveis sequelas neurológicas e físicas caso sobrevivesse.

Foi então iniciada uma corrente de oração pela intercessão do então Beato Ludovico Pavoni, sacerdote italiano do século XIX e fundador dos Filhos de Maria Imaculada.

No dia 26 de julho, Honório despertou. Em poucos dias, recuperou a autonomia e acabou recebendo alta sem as consequências graves que eram esperadas.

A cura foi examinada durante anos. Em março de 2016, a consulta médica da Congregação para as Causas dos Santos considerou a recuperação rápida, completa e duradoura cientificamente inexplicável. Em maio daquele ano, o Papa Francisco autorizou a promulgação do decreto sobre o milagre.

São Ludovico Pavoni foi canonizado em 16 de outubro de 2016.

São Guido Maria Conforti: um bebê prematuro em Santa Luzia

O italiano Guido Maria Conforti, fundador dos Missionários Xaverianos, também teve o milagre necessário para sua canonização reconhecido no Brasil.

A história aconteceu em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Em 2003, Tiago João dos Apóstolos Souza nasceu extremamente prematuro, após cerca de 25 semanas de gestação, pesando menos de 700 gramas. Ainda internado na UTI neonatal, sofreu uma prolongada parada cardíaca.

Diante da gravidade da situação e do risco de morte ou de severas sequelas neurológicas, familiares e membros da comunidade começaram a pedir a intercessão do então Beato Guido Maria Conforti.

Tiago sobreviveu e, contrariando as expectativas diante de um quadro tão grave, desenvolveu-se sem as sequelas previstas. A documentação médica foi investigada pela Igreja, e especialistas posteriormente consideraram o caso sem explicação científica satisfatória.

Bento XVI reconheceu o milagre, e Guido Maria Conforti foi canonizado em 23 de outubro de 2011, justamente no Dia Mundial das Missões.

Uma coincidência muito bonita para alguém que dedicou toda a sua vida à missão.

Beato Carlos da Áustria: o último imperador e uma religiosa em Santa Catarina

Aqui a história muda completamente de cenário.

Carlos da Áustria foi o último imperador do Império Austro-Húngaro. Nasceu em 1887, tornou-se imperador em plena Primeira Guerra Mundial e morreu no exílio, na Ilha da Madeira, em 1922.

Décadas depois, seu caminho para a beatificação passou por Canoinhas, em Santa Catarina.

A religiosa polonesa Irmã Maria Zita Gradowska, das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, vivia havia décadas no Brasil. Ela sofria de graves problemas circulatórios nas pernas, incluindo tromboflebite e úlceras varicosas, tendo passado por diferentes tratamentos e procedimentos médicos.

Em 1960, seu estado havia se agravado a ponto de ela permanecer acamada e praticamente não conseguir mais caminhar.

Numa noite de dezembro daquele ano, Irmã Maria Zita pediu a intercessão de Carlos da Áustria. Segundo o decreto oficial da causa, naquela mesma noite ocorreu uma recuperação completa da perna afetada. Na manhã seguinte, ela conseguiu levantar-se, caminhar e participar normalmente das orações da comunidade.

Depois das análises médicas e eclesiais, a cura foi reconhecida como milagre.

Carlos da Áustria foi beatificado por São João Paulo II em 3 de outubro de 2004.

É provavelmente um dos encontros mais improváveis desta lista: o último imperador da Áustria e uma religiosa polonesa vivendo numa cidade catarinense.

Beato Frederico Ozanam: uma criança de 18 meses em Nova Friburgo

Quem conhece a Sociedade de São Vicente de Paulo provavelmente já ouviu o nome de Frederico Ozanam, um de seus principais fundadores.

Francês, professor universitário, jornalista, intelectual e leigo católico, Ozanam viveu no século XIX. Seu processo de beatificação, porém, está ligado diretamente a uma família brasileira.

Em fevereiro de 1926, em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, uma criança brasileira de apenas 18 meses encontrava-se gravemente doente com difteria.

Sua família pediu a intercessão de Frederico Ozanam e a criança foi curada.

Décadas depois, a Congregação para as Causas dos Santos examinou o caso. A comissão médica reconheceu a cura em 1995, e os teólogos também se manifestaram unanimemente a favor do reconhecimento do milagre. O próprio Vaticano registra expressamente que a graça aconteceu em Nova Friburgo.

Ozanam foi beatificado por São João Paulo II em 22 de agosto de 1997, durante a Jornada Mundial da Juventude de Paris.

Uma ligação particularmente bonita para nós: uma beatificação celebrada diante de milhares de jovens de todo o mundo tornou-se possível graças a um milagre ocorrido décadas antes no interior do Rio de Janeiro.

Santo Aníbal Maria Di Francia: o primeiro milagre reconhecido aconteceu em Passos

Fechamos a lista em Passos, Minas Gerais, com Santo Aníbal Maria Di Francia.

Em 1985, a menina Gleida Ferreira Danese, então com nove anos, enfrentava um quadro clínico extremamente grave, que envolveu problemas como síndrome de Guillain-Barré, anemia pós-hemorrágica, choque hipovolêmico e ruptura traumática da aorta.

Sua avó foi até a capela do Educandário Senhor Bom Jesus dos Passos e pediu a intercessão de Padre Aníbal.

Gleida se recuperou.

O caso foi investigado pelo Tribunal Eclesiástico da Diocese de Guaxupé a partir de 1987. Em junho de 1990, a comissão médica da Congregação para as Causas dos Santos considerou a cura inexplicável à luz da ciência; os consultores teólogos reconheceram posteriormente o acontecimento como milagre atribuído à intercessão de Aníbal.

Em 7 de outubro de 1990, São João Paulo II proclamou Aníbal Maria Di Francia beato.

Anos depois, um segundo milagre ocorrido nas Filipinas permitiu sua canonização, realizada em 16 de maio de 2004.

Por isso, o milagre brasileiro não foi o da canonização, e sim aquele que abriu a porta para que Aníbal chegasse pela primeira vez às honras dos altares.

O mapa ficou ainda maior

Na primeira parte, já tínhamos passado por Roraima, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná, São Paulo, Maranhão e Espírito Santo.

Agora entraram Jundiaí, Sinop, Ribeirão Preto, São Paulo, Santa Luzia, Canoinhas, Nova Friburgo e Passos.

E talvez o que mais impressione seja perceber quem está unido por essas histórias.

Um imperador austríaco. Um intelectual francês. Religiosas italianas. Fundadores de congregações. Um bispo missionário. Sacerdotes que viveram na Europa muito antes de algumas dessas cidades brasileiras terem o tamanho que possuem hoje.

Nenhum deles precisou ter vivido no Brasil para que, décadas ou até mais de um século depois de sua morte, brasileiros recorressem à sua intercessão.

Isso também ajuda a compreender uma característica muito bonita da Igreja: a comunhão dos santos não conhece fronteiras.

Uma família de Jundiaí pode recorrer a um sacerdote alemão. Um trabalhador no Mato Grosso pode invocar uma religiosa italiana. Uma freira polonesa em Santa Catarina pode pedir ajuda a um antigo imperador austríaco. Uma família de Nova Friburgo pode confiar seu bebê à intercessão de um leigo francês que morreu mais de 70 anos antes.

E, em alguns desses casos, aquilo que começou como uma oração feita num quarto de hospital, numa casa ou numa capela brasileira terminou sendo examinado por médicos, teólogos, bispos e cardeais em Roma.

O resultado entrou oficialmente na história da Igreja.

Se a primeira lista já mostrava que o Brasil aparece no mapa da santidade, esta segunda parte confirma que ainda existem muitas histórias esperando para ser descobertas.

Porque a Igreja é universal. E, às vezes, o caminho de um santo europeu até os altares passa por uma pequena cidade brasileira. 🇧🇷

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