Setembro é um daqueles meses em que basta acompanhar o calendário da Igreja para encontrar um verdadeiro itinerário espiritual.
No Brasil, é tradicionalmente o Mês da Bíblia. Ao longo de seus trinta dias, a liturgia também nos coloca diante de grandes testemunhas da fé, como a Beata Isabel Cristina, Santa Teresa de Calcutá, São João Crisóstomo, São Mateus, São Padre Pio, Santos Cosme e Damião e São Jerônimo. Celebramos ainda a Natividade de Nossa Senhora, Nossa Senhora das Dores, a Exaltação da Santa Cruz e os Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael.
Mais do que simplesmente recordar datas, setembro pode ser vivido como um convite a voltar à Palavra de Deus, contemplar a Cruz de Cristo, caminhar com Maria e aprender com homens e mulheres que fizeram do Evangelho uma escolha concreta de vida.
Setembro é o Mês da Bíblia no Brasil
A tradição do Mês da Bíblia começou no Brasil em 1971 e permanece como uma das grandes iniciativas de animação bíblica da Igreja no país. A escolha de setembro está relacionada especialmente à memória de São Jerônimo, celebrada no dia 30, o grande estudioso das Escrituras que se dedicou à tradução da Bíblia para o latim.
Em 2026, a Igreja no Brasil propõe o aprofundamento do Livro de Daniel, acompanhado pelo lema:
“Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14).
O livro nasce em um contexto no qual a fé do povo de Deus é colocada à prova. Daniel representa aquele que vive no meio de uma cultura diferente, enfrenta pressões, ameaças e perseguições, mas permanece fiel ao Senhor. Por isso, a CNBB destaca que o livro convida à fidelidade a Deus diante dos desafios e fortalece no povo a esperança e a perseverança.
É uma mensagem bastante atual.
Daniel nos ensina que ter fé não significa viver sem dificuldades. Significa saber em quem colocar a confiança quando as dificuldades chegam. Impérios passam, poderes humanos desaparecem, circunstâncias mudam, mas o Reino de Deus permanece.
Uma boa maneira de viver setembro, portanto, é estabelecer um propósito concreto com a Bíblia. Pode ser a leitura diária de alguns versículos, a prática da Lectio Divina, a leitura completa do Livro de Daniel ao longo do mês ou a participação nos encontros bíblicos promovidos pelas paróquias e comunidades.
A Bíblia não foi dada apenas para ocupar um lugar de destaque na estante de nossa casa. Foi dada para iluminar a nossa vida.
1º de setembro: começar olhando para uma jovem santa do nosso tempo
Setembro começa com um testemunho muito próximo dos brasileiros.
No dia 1º de setembro, celebra-se a memória litúrgica da Beata Isabel Cristina Mrad Campos, jovem mineira assassinada em Juiz de Fora, em 1982, aos 20 anos, ao resistir a uma tentativa de violência sexual.
Seu martírio foi reconhecido pelo Papa Francisco em 2020 e Isabel Cristina foi beatificada em 10 de dezembro de 2022. A própria data de seu martírio foi estabelecida como sua memória litúrgica.
Isabel Cristina nos mostra que a santidade também pode vestir a roupa de uma jovem comum, com projetos, amigos e sonhos para o futuro. Sua fé, entretanto, não era um detalhe separado da vida. No momento decisivo, aquilo em que acreditava sustentou suas escolhas.
Começar setembro olhando para Isabel é recordar que a Palavra de Deus que meditamos precisa chegar às decisões concretas da nossa existência.
5 de setembro: Santa Teresa de Calcutá e a caridade que toca
Poucos dias depois, em 5 de setembro, a Igreja celebra Santa Teresa de Calcutá. Desde 2025, sua memória facultativa está inscrita no Calendário Romano Geral.
Fundadora das Missionárias da Caridade, Madre Teresa fez dos mais pobres entre os pobres o lugar de seu encontro diário com Cristo. Sua vida nos impede de transformar espiritualidade em algo fechado em nós mesmos.
Depois de abrir a Bíblia, é preciso abrir também os olhos.
Quem está sofrendo perto de mim? Quem precisa ser ouvido? Quem necessita de alimento, presença, companhia, atenção?
Talvez um dos melhores propósitos para setembro seja escolher uma obra concreta de misericórdia e permanecer fiel a ela durante todo o mês.
8 de setembro: celebrar o nascimento de Maria
No dia 8 de setembro, a Igreja celebra a Natividade da Bem-aventurada Virgem Maria, uma das mais antigas festas marianas da tradição cristã. É uma das apenas três natividades celebradas pelo calendário romano, juntamente com o nascimento de Jesus e o de São João Batista.
Celebrar o nascimento de Nossa Senhora é contemplar a aurora que anuncia a chegada do Salvador.
Maria ainda é uma criança, mas Deus já está preparando silenciosamente a história da salvação.
É também um lembrete importante para nossa vida: nem sempre enxergamos aquilo que Deus está começando. Há graças que chegam como pequenas sementes. Há histórias que ainda estão no início. Há respostas que ainda precisam amadurecer.
Maria nos ensina a confiar também nos começos de Deus.
13 de setembro: São João Crisóstomo e uma Palavra que precisa chegar à vida
No dia 13, celebramos São João Crisóstomo, bispo e doutor da Igreja.
Seu nome significa “boca de ouro”, referência à extraordinária capacidade de anunciar e explicar a Palavra de Deus. Grande conhecedor das Escrituras, especialmente das cartas de São Paulo, tornou-se um dos maiores pregadores da história do cristianismo.
Em pleno Mês da Bíblia, sua memória provoca uma pergunta necessária: o que fazemos com a Palavra depois que terminamos de lê-la?
A verdadeira leitura bíblica nunca termina na última linha do texto. Ela continua nas escolhas, nas palavras, nas relações e na forma como tratamos o próximo.
14 e 15 de setembro: a Cruz de Jesus e a Mãe que permaneceu junto dela
O centro do mês talvez esteja nestes dois dias consecutivos.
Em 14 de setembro, a Igreja celebra a Exaltação da Santa Cruz.
Não celebramos a violência, o sofrimento ou um instrumento de execução. Celebramos o amor de Cristo que transformou aquele instrumento de morte em sinal de salvação. Como recorda a tradição litúrgica, a festa também está ligada à veneração da Cruz de Cristo em Jerusalém desde os primeiros séculos.
A Cruz nos ensina que o cristianismo não oferece uma vida sem sofrimento. Oferece a certeza de que nenhuma cruz carregada com Cristo precisa ser carregada sozinha e de que a morte não possui a última palavra.
E, no dia seguinte, 15 de setembro, contemplamos Nossa Senhora das Dores.
A sequência das duas celebrações é profundamente significativa.
Primeiro olhamos para o Filho crucificado. Depois olhamos para a Mãe que permaneceu junto à Cruz.
Maria não compreendia o sofrimento apenas de longe. Ela estava ali. Permaneceu. A profecia de Simeão, de que uma espada transpassaria sua alma, chegava à sua expressão mais dolorosa aos pés do Filho.
Nossa Senhora das Dores pode ser especialmente invocada por aqueles que atravessam lutos, enfermidades, conflitos familiares e situações para as quais ainda não encontram respostas.
Há momentos em que nossa maior profissão de fé simplesmente consiste em permanecer.
Maria permaneceu.
21 de setembro: São Mateus e a graça que nos encontra onde estamos
No dia 21, celebramos São Mateus, Apóstolo e Evangelista.
Sua vocação possui uma das cenas mais bonitas do Evangelho. Mateus estava sentado na coletoria de impostos quando Jesus passou e lhe disse: “Segue-me!”. Ele se levantou e seguiu o Senhor.
Jesus não esperou Mateus organizar toda a vida para chamá-lo.
Chamou primeiro.
A transformação veio depois.
São Mateus nos recorda que nenhuma história está definitivamente encerrada enquanto Cristo continua passando pelo caminho. A graça de Deus consegue encontrar alguém até mesmo sentado no lugar errado e apontar uma direção completamente nova.
23 de setembro: Padre Pio e a força da oração
Em 23 de setembro, a Igreja celebra São Pio de Pietrelcina, o popular Padre Pio.
O frade capuchinho fez da oração, da Eucaristia e do sacramento da Reconciliação o centro de seu ministério. Passava muitas horas atendendo confissões e gostava de definir a si mesmo simplesmente como “um pobre frade que reza”.
Em uma época marcada pela pressa, a memória de Padre Pio nos desafia a recuperar o tempo oferecido a Deus.
Talvez setembro seja também uma oportunidade para voltar à confissão, participar de uma Missa durante a semana, retomar o Rosário ou simplesmente reservar alguns minutos do dia para ficar em silêncio diante do Senhor.
26 de setembro: Santos Cosme e Damião e uma devoção que toca minha própria história
No calendário litúrgico, a memória dos Santos Cosme e Damião é celebrada em 26 de setembro, embora no Brasil a devoção popular aos dois santos muitas vezes apareça associada também ao dia 27.
Segundo a tradição, os irmãos Cosme e Damião eram médicos e exerciam sua profissão sem cobrar pelos cuidados oferecidos aos enfermos. Por isso receberam o título de anárgiros, expressão que significa “sem prata”. Foram martirizados durante as perseguições aos cristãos no início do século IV.
Para mim, porém, esta celebração possui um significado ainda mais pessoal.
Meu nome é Robson Damião justamente por causa de São Damião.
Minha família atribui à intercessão do santo a graça de eu ter nascido são e salvo. Por isso, carregar “Damião” no nome é também carregar comigo a memória de uma graça recebida antes mesmo que eu pudesse conhecê-la.
É meu onomástico, mas é também uma recordação de que muitas vezes nossa história com Deus começou antes de termos consciência dela. Somos fruto de orações que talvez não tenhamos ouvido, promessas que outros fizeram, lágrimas que não vimos e intercessões que acompanharam nossa vida desde o início.
A festa de Cosme e Damião pode, então, ser uma ocasião para perguntar: quais graças recebidas ao longo da minha história eu preciso recordar e agradecer novamente?
29 de setembro: Miguel, Gabriel e Rafael, os Arcanjos de Deus
Quase terminando o mês, no dia 29 de setembro, a Igreja celebra juntos os Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael.
E há uma coincidência providencial muito bonita com o Mês da Bíblia de 2026.
Uma das leituras propostas para a festa dos Arcanjos vem justamente do Livro de Daniel, o livro escolhido para este Mês da Bíblia, e apresenta a visão daquele que recebe “poder, glória e realeza”, cujo domínio é eterno.
Miguel nos recorda o combate espiritual e a soberania de Deus diante do mal.
Gabriel é o mensageiro da Encarnação, aquele que leva a Maria o anúncio de que o Filho de Deus entraria na história.
Rafael aparece no Livro de Tobias como companheiro de viagem, instrumento da providência e da cura de Deus.
Três arcanjos, três dimensões que também precisamos entregar ao Senhor: nossos combates, nossa missão e nossas feridas.
30 de setembro: São Jerônimo fecha o mês nos devolvendo à Bíblia
E setembro termina exatamente onde começou: diante da Palavra.
No dia 30, celebramos São Jerônimo, presbítero e doutor da Igreja, que dedicou grande parte de sua vida ao estudo das Sagradas Escrituras e realizou a célebre tradução bíblica para o latim conhecida como Vulgata. Morreu em 30 de setembro do ano 420.
É dele uma das frases mais conhecidas da tradição cristã:
“Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo.”
Talvez esta seja também uma boa pergunta para encerrar setembro: depois de um mês inteiro dedicado à Bíblia, conhecemos Jesus um pouco mais?
Porque esse é o objetivo.
Não colecionar informações bíblicas. Encontrar uma Pessoa.
Um propósito para setembro
Entre tantas celebrações, podemos transformar o mês em um pequeno itinerário espiritual:
- Palavra: ler diariamente a Bíblia e conhecer especialmente o Livro de Daniel.
- Caridade: realizar uma obra concreta de misericórdia inspirada em Santa Teresa de Calcutá e Santos Cosme e Damião.
- Cruz: oferecer a Cristo nossas dificuldades e contemplar com mais frequência o Crucificado.
- Oração: retomar uma prática que tenha sido abandonada, como o Rosário, a confissão frequente, a adoração ou alguns minutos diários de silêncio.
- Santidade: escolher um dos santos celebrados em setembro e conhecer melhor sua história.
No fim das contas, talvez seja essa a grande mensagem deste mês.
Daniel nos lembra que o Reino de Deus jamais será destruído. Isabel Cristina mostra que vale a pena permanecer fiel. Teresa nos manda para os pobres. Maria nos ensina a acolher e permanecer. A Cruz revela até onde chega o amor. Mateus mostra que sempre é possível recomeçar. Padre Pio aponta para a oração. Cosme e Damião transformam profissão em serviço. Os Arcanjos recordam que o Céu não está indiferente à nossa caminhada. E São Jerônimo coloca novamente a Bíblia em nossas mãos.
Que setembro não seja apenas mais um mês no calendário.
Que seja um mês para abrir a Palavra, levantar os olhos para a Cruz e dar alguns passos concretos em direção à santidade.

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