Venerável brasileira que lutou pelos direitos das pessoas com deficiência terá história levada aos cinemas

A vida da Venerável Maria de Lourdes Guarda, leiga brasileira que transformou décadas de limitações físicas em uma história de fé, serviço e luta pela dignidade das pessoas com deficiência, será levada aos cinemas. O projeto está sendo desenvolvido pela Kolbe Arte, a pedido da Diocese de Jundiaí, por iniciativa do bispo diocesano, Dom Arnaldo Carvalheiro Neto.

A produção começou a ser trabalhada em 2024 e, desde então, vem passando por um processo de pesquisa e amadurecimento com o objetivo de preservar a memória da Venerável e apresentar ao grande público seu testemunho de vida.

Nesta terça-feira (25), o projeto deu mais um passo importante. Em uma reunião realizada na Secretaria de Cultura, foi consolidada uma parceria para o início de uma nova etapa da produção.

Participaram do encontro o diretor Alexandre Machafer; o produtor Tarcizio Rafael; Angela Morais, CEO e fundadora da Kolbe Arte; e José Júnior Guarda, primo da Venerável, que acompanha e apoia o desenvolvimento do projeto. Também estiveram presentes o secretário de Cultura, Sandro Bergamo, e a secretária de Comunicação e Turismo, Iara Gonzaga Bortoluci.

Créditos: Kolbe Arte
Créditos: Kolbe Arte

Segundo a Kolbe Arte, o encontro representa a união de pessoas e instituições que acreditam na importância de preservar e tornar conhecida a história de Maria de Lourdes Guarda. Novas informações sobre a produção deverão ser divulgadas à medida que o projeto avance.

Da sala de aula para décadas sobre uma cama

Maria de Lourdes Guarda nasceu em 22 de novembro de 1926, em Salto, no interior de São Paulo. Estudou no Colégio do Patrocínio, em Itu, dirigido pelas Irmãs de São José de Chambéry, e, aos 18 anos, já trabalhava como professora. Ela também alimentava o desejo de seguir a vida religiosa, como havia feito uma de suas irmãs.

Os planos, porém, foram profundamente transformados por um problema de saúde na coluna que lhe provocava fortes dores. Em 12 de agosto de 1947, Maria de Lourdes passou pela primeira cirurgia. Nos cinco anos seguintes, foram seis intervenções na tentativa de recuperar seus movimentos.

As complicações se agravaram. Maria de Lourdes teve a perna direita amputada acima do joelho e sofreu uma grave atrofia e imobilidade da perna esquerda. Sem conseguir sequer permanecer sentada, passou grande parte de sua vida deitada em uma cama.

Em 1972, chegou a completar 25 anos de internação no Hospital Matarazzo, em São Paulo. Mesmo imobilizada, fazia tricôs e bordados sob encomenda para ajudar a pagar as despesas hospitalares. Seu quarto tornou-se ponto de encontro de amigos e também de pessoas que procuravam ajuda, orientação e consolo.

Foi nesse contexto que nasceu uma frase que marcaria sua trajetória:

“Nenhuma deficiência é impedimento para a vida.”

Uma voz pelos direitos das pessoas com deficiência

A história de Maria de Lourdes, no entanto, não ficou restrita à maneira como enfrentou suas próprias limitações. Ela se tornou uma importante liderança na mobilização e na valorização das pessoas com deficiência no Brasil.

Maria de Lourdes passou a atuar na Fraternidade Cristã de Pessoas com Deficiência (FCD) e chegou à coordenação nacional do movimento, função que exerceu até 1992. Mesmo precisando permanecer deitada, viajou pelo Brasil e por outros países da América Latina graças à ajuda de amigos, colaboradores e à doação de passagens aéreas.

Segundo a Diocese de Jundiaí, sua atuação contribuiu para a formação de mais de 250 grupos da Fraternidade em território brasileiro.

Sua própria cama chegou a se transformar em instrumento de missão e mobilização. Padre Geraldo Labarrère, que conviveu com Maria de Lourdes, contou que, em 1977, surgiu a ideia de colocar rodas nos pés da cama para que ela pudesse sair do quarto e chegar ao jardim do hospital. A possibilidade de locomoção abriu novos caminhos. Ela começou a visitar outros doentes e intensificou sua participação na Fraternidade, viajando posteriormente por diferentes regiões do país.

Seu trabalho ultrapassou a assistência e a caridade individual. Maria de Lourdes participou diretamente de uma época em que as próprias pessoas com deficiência passavam a ocupar cada vez mais espaço na defesa de sua dignidade, autonomia, participação social e direitos.

Em 2008, ao propor que o Núcleo de Apoio ao Portador de Deficiência de Jundiaí recebesse seu nome, o poder público municipal destacou que Maria de Lourdes havia participado “intensamente das lutas pela valorização do deficiente”, com um trabalho de reconhecimento nacional e internacional.

Atualmente, o Núcleo de Assistência à Pessoa com Deficiência Maria de Lourdes Guarda, em Jundiaí, mantém viva essa memória. O serviço público atua no atendimento especializado, reabilitação, promoção da autonomia e inclusão social de pessoas com deficiência.

Em 2025, seu nome também passou a identificar o Diploma Maria de Lourdes Guarda, criado pela Câmara Municipal de Jundiaí para homenagear pessoas com deficiência, doenças raras ou outras condições que tenham atuação de destaque na promoção da inclusão, da acessibilidade e de causas relevantes para a sociedade.

Reconhecida como Venerável pela Igreja

Maria de Lourdes Guarda faleceu em 5 de maio de 1996. Seus restos mortais foram posteriormente trasladados para a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat, em Salto, onde seu túmulo recebe a visita de fiéis.

Sua causa de canonização avançou significativamente em 21 de novembro de 2025, quando o Papa Leão XIV autorizou a promulgação do decreto reconhecendo suas virtudes heroicas. Com a decisão, Maria de Lourdes passou oficialmente a receber o título de Venerável.

O reconhecimento significa que a Igreja considera que a brasileira viveu de modo heroico as virtudes cristãs. O próximo passo para uma eventual beatificação é o reconhecimento de um milagre atribuído à sua intercessão.

Uma história brasileira que chegará às telas

O filme em desenvolvimento pela Kolbe Arte poderá apresentar ao público justamente essas diferentes dimensões da vida de Maria de Lourdes: a mulher de profunda espiritualidade, a enferma que passou décadas sobre uma cama, a pessoa que acolhia quem chegava ao seu quarto e, também, a protagonista que ajudou outras pessoas com deficiência a ocuparem espaços, organizarem-se e serem reconhecidas em sua dignidade e seus direitos.

Ainda não foram divulgados detalhes sobre elenco, início das filmagens ou previsão de estreia nos cinemas. A Kolbe Arte afirma, porém, que o projeto entra agora em uma nova etapa e que outras novidades serão apresentadas em breve.

Mais de um século depois de seu nascimento, a frase de Maria de Lourdes Guarda continua resumindo uma vida que não aceitou que a limitação física significasse ausência de missão: “Nenhuma deficiência é impedimento para a vida.”

Com informações de Kolbe Arte

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