Quando pensamos na Quaresma, normalmente recordamos práticas essenciais como o jejum, a abstinência ou algum sacrifício pessoal. No entanto, ao ler as Memórias da Irmã Lúcia, percebemos que São Francisco e Santa Jacinta Marto viveram algo muito mais profundo. Eles não apenas fizeram penitência, mas transformaram toda a vida em oferta de amor a Deus. E o mais impressionante é que eram apenas crianças.
A espiritualidade dos pastorinhos revela que a verdadeira vivência quaresmal começa quando o coração deseja consolar Jesus e colaborar com a salvação das almas.
A oração como reparação: consolar o Coração de Jesus
Irmã Lúcia recorda que Francisco procurava frequentemente lugares escondidos para rezar e permanecer em silêncio diante de Deus. Sobre ele, escreve:
“Gosto mais de rezar sozinho, para pensar e consolar a Nosso Senhor que está tão triste.”
(Memórias da Irmã Lúcia, p. 155)
Francisco compreendeu algo profundamente quaresmal: a oração não existe apenas para pedir graças, mas para amar, reparar e consolar Cristo ferido pelos pecados da humanidade.
A Quaresma torna-se, assim, um convite à oração silenciosa, à adoração e à companhia fiel a Jesus, especialmente na Eucaristia.
Penitência que nasce do amor e não da obrigação
Santa Jacinta impressiona pela maturidade espiritual com que passou a viver o sacrifício cotidiano. Seus gestos não eram extraordinários exteriormente, mas profundamente sobrenaturais na intenção.
Mesmo sofrendo com sede intensa, dizia:
“Nosso Senhor deve estar contente com os nossos sacrifícios, porque eu tenho tanta sede! Mas não quero beber; quero sofrer por Seu amor.”
(Memórias da Irmã Lúcia, p. 104)
Em outra ocasião, preferiu transformar um gesto simples em oferta espiritual:
“Em vez de oferecer a Nosso Senhor a sede, oferecia-Lhe o sacrifício de beber desta água.”
(Memórias da Irmã Lúcia, p. 104)
Os pastorinhos mostram que a penitência quaresmal não depende de grandes mortificações, mas da capacidade de oferecer a Deus as pequenas renúncias do cotidiano.
Sofrer pelos pecadores: o verdadeiro espírito da Quaresma
Durante sua doença, Jacinta expressava claramente o motivo pelo qual aceitava seus sofrimentos:
“Quero sofrer por amor de Nosso Senhor e pelos pecadores.”
(Memórias da Irmã Lúcia, p. 62)
Aqui encontramos o coração da mensagem de Fátima e também da Quaresma: unir os próprios sacrifícios ao sofrimento redentor de Cristo pela conversão das almas.
A espiritualidade cristã deixa então de ser apenas pessoal e torna-se profundamente missionária e intercessora.
Como viver uma Quaresma além do básico?
A vida de São Francisco e Santa Jacinta ensina que a Quaresma não consiste apenas em cumprir práticas externas, mas em mudar a intenção do coração.
Eles nos recordam que:
- a oração pode ser simples e silenciosa;
- o sacrifício nasce das contrariedades diárias;
- o sofrimento oferecido torna-se intercessão;
- a santidade não depende da idade, mas da resposta ao amor de Deus.
Francisco e Jacinta viveram poucos anos, mas compreenderam o essencial do Evangelho: tudo pode tornar-se oferta quando é vivido por amor.
Talvez a pergunta certa para esta Quaresma não seja apenas o que vamos deixar, mas o que começaremos a oferecer por amor a Jesus e pela salvação das almas.

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