Todo início de ano costuma vir carregado de promessas, metas e desejos de mudança. A gente faz planos, escreve listas, sonha alto. Mas, no fundo, existe um risco silencioso que atravessa janeiro, fevereiro e segue firme até dezembro: continuar exatamente do mesmo jeito, com uma espiritualidade que até fala de conversão, mas foge dela na prática. É aqui que entra o que eu chamo de “síndrome de Gabriela”.
Inspirada na famosa canção eternizada por Gal Costa, a lógica é simples e sedutora:
“Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim.”
Essa frase, quando vira postura de vida, transforma-se numa verdadeira armadilha espiritual. Ela soa como sinceridade, autenticidade, até coragem. Mas, na realidade, muitas vezes esconde resistência, comodismo e medo de mudar.
Quando “ser assim” vira desculpa para não se converter
A síndrome de Gabriela aparece quando usamos a nossa história, o nosso temperamento ou até os nossos pecados como justificativa para permanecer onde estamos. É o famoso “eu sou assim mesmo”, aplicado ao orgulho, à impaciência, à dureza de coração, à falta de perdão, à vida desregrada ou à mediocridade espiritual. O problema é que essa postura entra em choque direto com o Evangelho.
Jesus nunca chamou ninguém para permanecer igual. O chamado é sempre para sair de si, deixar as seguranças antigas e caminhar em direção a algo novo. A dureza para mudar, longe de facilitar a vida, acaba tornando tudo mais pesado. Relacionamentos se desgastam, a fé estagna, a oração esfria e a alegria do seguimento vai desaparecendo aos poucos.
No fundo, resistir à conversão não nos protege; apenas nos aprisiona.
Metanoia: mudar a mente, o coração e o rumo
A palavra bíblica para conversão é metanoia, que significa muito mais do que “melhorar um comportamento”. Trata-se de uma mudança profunda de mentalidade, de direção e de critério. É aceitar que nem tudo em mim está certo, que nem tudo precisa ser preservado, que nem toda história pessoal deve ser canonizada.
Abrir-se ao querer de Deus exige humildade. Exige admitir que Ele sabe mais, vê mais longe e ama melhor do que nós mesmos. A conversão radical não é perda de identidade; é purificação dela. Não nos anula, mas nos reorganiza por dentro. E, paradoxalmente, é justamente essa abertura às mudanças necessárias que torna o caminho mais seguro no seguimento de Cristo rumo ao Céu.
Santos que renunciaram à Síndrome de Gabriela
A história da Igreja é cheia de homens e mulheres que poderiam ter vivido presos à síndrome de Gabriela, mas escolheram outro caminho.
Santo Agostinho tinha todos os argumentos para permanecer onde estava: inteligência brilhante, sucesso, prazeres, uma vida construída segundo os próprios critérios. Ainda assim, quando se deixou alcançar pela graça, não disse “eu sou assim”. Disse, com lágrimas e coragem, “tarde te amei”. E mudou tudo.
São Francisco de Assis também poderia ter se definido para sempre como o jovem rico, festeiro e ambicioso de Assis. Mas quando ouviu o chamado de Cristo, não negociou a conversão. Desapegou-se radicalmente, mudou o rumo da própria vida e tornou-se sinal vivo do Evangelho.
Santa Maria Egipcíaca talvez seja um dos exemplos mais fortes. Marcada por uma vida de pecado, poderia ter se resignado à própria história. Mas, ao encontrar-se com Deus, permitiu que a graça refizesse completamente o seu interior, transformando uma vida desordenada em um testemunho extremo de penitência e amor.
Nenhum deles nasceu santo. Nenhum deles “foi sempre assim”. Todos se deixaram mudar.
2026: um ano para dizer menos “eu sou assim” e mais “seja feita a Tua vontade”
Renunciar à síndrome de Gabriela não significa viver em culpa constante ou negar quem somos e sim parar de absolutizar limites, vícios e pecados como se fossem cláusulas definitivas da nossa identidade. Significa confiar que Deus não nos chama para um caminho impossível, mas para um caminho transformador.
Talvez 2026 seja o ano de trocar o refrão da acomodação pela oração da disponibilidade. Menos “vou ser sempre assim” e mais “os meus passos são Teus, o meu próximo minuto é Teu…”. Menos defesa do próprio ego e mais docilidade ao Espírito Santo.
A conversão não é confortável, mas é libertadora. Não é fácil, mas é fecunda. E, sobretudo, é o único caminho verdadeiramente coerente para quem decidiu seguir Cristo.
No fim das contas, o Céu não é o prêmio dos que permaneceram iguais, mas dos que aceitaram ser transformados pelo amor.
E para te ajudar a rezar, dá o play e escuta “Teus Planos” de Juninho Cassimiro e participação especial de Frei Gilson:


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