Sabemos que o racismo tem sido uma das pautas mais debatidas com o passar do tempo, isso é fato, mas o que está acontecendo?

SIM! Nós, negros e aqueles que decidem, como Jesus, acolher a dor do outro, estamos cada vez mais encorajados a denunciar, falar, estudar e lutar, por que estamos fartos e cansados de viver à margem, sem oportunidades, fadados ao preconceito vil e cruel da sociedade, apenas pela cor da pele, isso tudo aliado ao fato de que também estamos caindo em si, ou seja, nos reconhecemos cada vez mais convictos de que o mundo também é nosso e isso inclui TODOS os ambientes que outrora, eram dominados pela parcela branca da população.

Mas, prefiro sempre começar com a palavra de Deus, e a fundamental hoje é: Atos dos Apóstolos:

“Tomando, então, a palavra, Pedro falou: dou-me conta, em verdade, que Deus não faz acepção de pessoa, mas que em qualquer nação, quem o teme e pratica a justiça, lhe é agradável” (At 10, 34-35).

É certo que Deus não faz acepção de pessoas, uma vez que Ele, o Criador de tudo e de todos, não escolheria, como não escolheu, qual povo é melhor ou mais bonito que outro, qual povo merece ou não ser escravizado – até por que nos criou para a LIBERDADE -, qual povo merece ou não ter melhores oportunidades, enfim, Deus em Sua infinita bondade, beleza e criatividade, criou pessoas diferentes, mas amadas de forma PESSOAL e com a mesma força e intensidade.

Porém, o homem, este inserido em todos os ambientes, por ganância e talvez por vontade de ser como Deus, decide que existe um povo – negro – que pode ser escravizado, estigmatizado, humilhado e marginalizado para corresponder às suas vontades. É crível, também, que a escravidão na teoria acabou. Hoje, em tese, vigora a liberdade do povo outrora cativo. Mas, quais as consequências trazidas pelos séculos de escravidão e genocídio do povo negro?

Para isso, trago à tona, um trecho da obra: “O que é racismo estrutural”, do ilustre advogado e filósofo negro, Sílvio Almeida:

“Desde que comecei a integrar as ações do movimento negro e estudar a fundo as relações raciais, passei a prestar atenção no número de pessoas negras nos ambientes que frequento, e que papel desempenham. Nos ambientes acadêmicos e próprios ao exercício da advocacia, percebi que, na grande maioria das vezes, era uma das poucas, senão a única pessoa negra nestes lugares na condição de advogado e de professor. Entretanto, esta percepção se altera completamente quando nestes mesmos ambientes, olho para os trabalhadores da segurança e da limpeza: a maior parte negros e negras como eu, todos uniformizados, provavelmente mal remunerados, quase imperceptíveis aos que não foram “despertados” para as questões raciais como eu fora”.

Esse pequeno trecho de uma obra riquíssima, nos faz pensar em algumas questões:

  1. Como combater essa realidade?
  2. Como mudar essa realidade perversa que nos assola, inclusive dentro da Igreja?
  3. Em que lugar estão os negros (que é maioria na população brasileira)?
  4. O que nós, católicos, podemos fazer para combater o racismo?

Bom, temos muito o que fazer para combater o racismo, sobretudo, dentro da Igreja, por isso, a partir de agora vou elencar algumas atitudes que vão nos nortear nessa caminhada antirracista:

Entender que a luta antirracista não é uma luta ideológica, mas uma luta HUMANA. Não é uma luta dos partidos de esquerda (eles podem e devem lutar contra o racismo também, assim como os partidos de direita ou mais centrais), mas é uma LUTA DE TODAS AS PESSOAS HUMANAS.

Entender que nós católicos, precisamos e DEVEMOS falar sobre isso, sem medo (e se você não quer falar sobre, por que acha que é vitimismo, o que você pode fazer é se calar, mas saiba: o silêncio também mata e a atitude de Jesus diante desse cenário jamais seria o silêncio, aliás, pelo contrário, acredito eu, que Ele não só acolheria o sofrimento, mas falaria em nome daqueles que sofrem).

ESTUDE: é importante conhecer para falar! Leia autores negros que conhecem a história, que conhecem os desdobramentos e as consequências de séculos de escravidão no mundo e no nosso país.

METANÓIA: mudança de mentalidade: A partir de termos, brincadeiras e costumes racistas que você pode achar engraçado, mas não, não é NADA engraçado. Se colocar no lugar do outro é um grande exercício.

– PERDÃO: Você pode pedir perdão para as pessoas que, porventura, você ofendeu, magoou. O perdão também liberta, mas lembre-se: o perdão sem mudança de mentalidade e comportamento, é apenas palavra que o vento leva.

– RECONHECIMENTO: reconhecer os seus privilégios também ajuda no combate ao racismo. “Ah mas eu sou branco e pobre, não tive oportunidades”: É claro que a desigualdade social também assola o nosso país, mas nenhuma pessoa branca morre por ser branca, ao passo que uma pessoa negra, sim!

– PROTAGONISMO: lugar aos negros para falar como se sentem. Na luta antirracista, o protagonista é o negro.

– OPORTUNIDADE: Se você tem uma empresa, dê oportunidades de trabalho, de ascensão e de salários IGUAIS para pessoas negras. Na Igreja, deixem os negros em todos os lugares que existe: queremos mais padres negros, mais bispos negros, mais leigos consagrados negros, mais celibatários negros, mais famílias negras, mais religiosos negros, mais coordenadores negros, mais espaço em TUDO.

– Os nossos traços, cabelos e roupas são como são. Não é mais ou menos bonito que nada. Somos assim e ponto. Dificilmente alguém vai dizer: “Seu cabelo liso não condiz com a vida consagrada”, mas, acredite, negro vire e mexe escuta: “Você vai à missa com esse cabelo todo pra cima?” ou “Esse cabelo não condiz com uma pessoa consagrada”.

Trago ainda, um trecho da entrevista de Dom José Maria Pires, falecido negro Arcebispo da Paraíba para sepultar o argumento de que o racismo não existe dentro da Igreja:

“A Igreja e a sociedade estão empatadas em preconceito. No processo histórico da política brasileira, um dos últimos atos contra os negros foi o decreto de 1946, assinado por Getúlio Vargas, que proibia a entrada e migração de negros. Na Igreja, até o Concílio Vaticano II, em muitas instituições havia a proibição de se aceitar negros, o que explica até o pequeno número de padres e religiosos negros. Um outro fator que influi para essa pequena existência de religiosos é que o negro não estudou, não se aprofundou” (JORNAL O SÃO PAULO, 1988).

Concluo, dizendo que a fé me permite acreditar que Deus não vai permitir que o ódio racial exista para sempre. Sob seu Reino, homens e mulheres de todas as nações, tribos, povos e línguas servirão a Ele unidos, demonstrando amor genuíno uns pelos outros. O Reino de Deus não é algo abstrato dentro de nós. Pelo contrário, o Reino de Deus encarnado transformará a vida terrena em um lugar sem barreira racial.

A luta pela liberdade precisa CONTINUAR, e agora com um novo capítulo: dentro da Igreja de Jesus. O Senhor já nos soprou o Espírito Santo que nos faz UM com Ele.

VAMOS JUNTOS!

Caio Rodrigues (siga no Instagram), negro, missionário da Comunidade Católica Shalom como Comunidade de Aliança, pós-graduando em Direito e Processo Penal e confiante na luta antirracista com um novo capítulo: dentro da Igreja de Jesus.

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